Cláudia de Marchi
Essa semana resolvi me debruçar sobre a pauta do etarismo. Questão que massacra homens e mulheres obliterando a evolução pessoal de cada um e as vivências que nos modificam sem nos moldar, pois são constantes. Essa crônica aborda o assunto independentemente do gênero sem olvidar do fato que o “divórcio cinza” é respaldado pela independência financeira feminina: depender de homem para satisfazer necessidades básicas é escravizante, mas é a base da maioria dos casamentos de nossas avós e de todas as mulheres que vieram antes delas.
O divórcio dos meus pais foi “cinza”. Eles estavam juntos há vinte e sete anos quando, com 54 anos, minha mãe decidiu que não queria mais viver aquele relacionamento contrariando, inclusive, o pai dela pois ele não queria ter “mais uma filha separada”. Entretanto, ao contrário do escrito no parágrafo anterior, ela era dependente financeiramente do meu pai em virtude de ter parado de lecionar por conta dos ciúmes dele.
Eu senti e ainda sinto orgulho dela como mulher por tal corajosa e briosa decisão. Eu detestaria ter uma mãe sem brio. No divórcio ficou estabelecida uma pensão mensal e vitalícia — pois ela não conseguiria voltar ao mercado de trabalho depois de tanto tempo sem trabalhar — de R$ 1.500,00, em 2007, reajustada pelo INPC se não me falha a memória. Ele parou de pagar em 2014 e ela, para minha lástima, nunca quis regularizar a situação cobrando o seu direito no Judiciário.
Minha mãe conta comigo desde então, com uma aposentadoria modesta advinda anos após o divórcio e com os trabalhos dela como artesã, na verdade ela fez artesanato durante toda a vida, pois é a sua paixão. Nunca ganhou o suficiente para se manter unicamente de seu dom, mas nunca ficou sem fazer nada, de mais a mais, ter me educado com esmero foi um trabalho árduo. Educar filhos é um trabalho não remunerado, cozinhar, lavar, passar, esperar o marido com a casa brilhando, também é.
O nome “divórcio cinza” tem a ver com o que seria a cor dos cabelos de quem toma a decisão de se divorciar após os 50 anos. Conheço pouquíssimas mulheres e homens com os cabelos grisalhos nessa faixa etária, nem a minha avó que faleceu aos 97 anos era grisalha. Entretanto, como há uma onda de mulheres se rebelando contra as tintas de cabelo, aceito como plausível o termo, embora o ache etarista, pois presume que, após os 50 anos, até a aparência estética das pessoas está “velha”.
Cerca de 30% dos divórcios realizados no país nos últimos anos advém desse público casado há longo tempo, em 2010 era apenas 10%. Li várias matérias a respeito com longas explicações acerca das razões que colaboraram para o crescimento de separações de casais com mais de 50 anos e posso sintetizar tudo numa frase: as pessoas descobriram — antes tarde do que mais tarde — que a vida não termina enquanto elas têm energia para viver e não vale a pena ficar em relacionamento parcamente satisfatório esperando a morte chegar.
O autoconhecimento também faz parte destas razões. A minha própria mãe não tinha mais desejo sexual pelo marido, consequentemente, seria uma tortura se manter casada e fazer sexo sem ânimo. Honesta e pragmática que é, optou por ser e deixar livre o homem que um dia amou. Ato de máximo respeito consigo mesma e, claro, com o ex-marido. Frise-se que, dentro do casamento, o sexo também é um trabalho não remunerado.
Ao contrário dela, muitas mulheres não desejam mais ter relações íntimas com o marido, mas querem outros homens, então aproveitam a sua vida da forma que desejam exercendo sua sexualidade com liberdade e maturidade. Isso serve para os homens, mas eles sempre foram livres neste e em vários outros quesitos: quem, em boca alheia, vira “osso” com o tempo são as mulheres.
Quando eu me relacionei com um homem casado ouvi de uma conhecida em comum que o fulano nunca iria “largar o osso” e de uma tia que brinca há muito tempo dizendo que se a pessoa “comeu a carne, deve roer o osso”. Nunca ouvi esse tipo de frase na qual o homem seria o osso a ser roído, uma espécie de condenação eterna por conta de uma escolha antiga e de alguma gratidão. É o machismo refletido na linguagem cotidiana vulgar, local no qual ele costuma reinar.
Não é de hoje que acho um desvario a ideia de um amor eterno, de um relacionamento até o fim da vida. Não quando as pessoas se casam com menos de 30 ou 20 anos, se o casamento se der após os 50 seguir até o fim me parece mais plausível, pois a pessoa está mais próxima de ser quem ela irá se tornar na terceira idade. Salvo raríssimas exceções, as pessoas não seguem se admirando reciprocamente, se desejando sexualmente e seguindo no mesmo ponto de partida do início do casamento, há mais de vinte anos.
As pessoas mudam, os anseios mudam, os desejos mudam e, de repente, — mas nunca tão de repente assim — a pessoa com a qual se compartilha uma cama e anos da vida não se afina mais conosco, não nos dá a sensação de completude de outrora. Embora, claro, ninguém complete ninguém, o amor nos dá essa sensação de estarmos plenos do outro. Perfeita foi a prefaciante de Caótica, a poeta maravilhosa Mar Becker, aos escrever: “Que seja casa o amor, ainda que amar desabrigue”.
Acho justo tratarmos o casamento que finda após os 50 anos do casal como cinza, mas não pela suposta cor das melenas dos cônjuges, mas pela falta cromática, pela ausência de brilho e de alegria nos prazeres cotidianos. As pessoas seguem juntas, pois, consciente ou inconscientemente, introjetaram a ideia de estar com o outro até o fim é sinônimo de sucesso social. Em tempos de expectativa de vida cada vez mais longeva ela clama por ser experenciada a qualquer tempo. E vida bem vivida é colorida, não cinza.
Dentro dos matrimônios grey o luto pelo fim não ocorre apenas após o divórcio amigável ou litigioso, ele se desenrola ao longo do tempo, a cada frustração. Normalmente, a pessoa mais narcisista do relacionamento termina se valendo da linguagem para aniquilar a autoestima do outro e mantê-lo ali. São frases como “só eu para te aguentar”, “ninguém vai te amar como eu”, dentre outras afirmações tão perigosas quanto falsas.
A divisão de bens e dívidas pode ser complexa em casamentos com mais de vinte e cinco anos quando o casal está unido pela comunhão parcial ou total de bens, todavia essa circunstância não vem impedindo as pessoas de romperem o vínculo matrimonial, afinal nenhuma grande decisão em prol da própria felicidade é desprovida de algum ou de alguns ônus. Ademais, a questão jurídica do rompimento da sociedade conjugal está cada vez mais simplificada e célere, basta vontade e, claro, coragem.
Embora eu desconheça dados acerca disso, sei que a decisão pela separação normalmente vem das mulheres. Justamente por serem sexualmente mais livres os homens costumam encontrar sexo fora de casa e ir adiante com suas relações seja por medo de magoar a esposa — uma espécie de gratidão com dó, algo indigno em minha opinião — afinal eles estão condenados a “roer o osso”, seja por medo de encarar a solidão, seja por culpa, seja para manter as aparências de família feliz e matrimônio bem-sucedido. Independentemente da justificativa, todas as razões são permeadas pela covardia.
É preciso coragem para encarar recomeços. É preciso coragem para ficar só. É preciso coragem para sair do lugar do acomodamento. É preciso coragem para recuperar a própria identidade perdida ao longo dos anos no qual a pessoa se vê como esposa do fulano e marido de beltrana. É preciso coragem para desconstruir a ideia de que a idade do ânimo e da criação já passou e o tempo de estabelecer novos vínculos amorosos ficou no passado. É preciso coragem para amar novamente, para se abrir ao novo, para seguir livre e só. Mas a vida plena, meus caros e minhas caras, requer coragem, sinto pena de quem não a tem.
Viver é um período de permanente renascimento e redescoberta que só termina quando morremos. Não somos condenados a ser quem éramos dez, vinte ou trinta anos atrás, aliás, imunes ao aprendizado são aqueles e aquelas que se mantém iguais ao longo da vida. É sempre tempo de brilhar mais, de amar mais, de amar de novo, de se redescobrir e se amar em sua renovada versão.
O tempo certo para algo acontecer, de um divórcio a um empreendimento, é o da vontade, da necessidade de mudança, de nova criação. Não existe período etário melhor ou pior para assumir o fim de um casamento e encarar a dor causada pelo divórcio, afinal, sempre dói. Encarar o fim de qualquer coisa é doloroso, mas viver dói. Rejubila, mas também dói. Enfim, o que existe é coragem ou não para seguir a vida só ou na companhia da pessoa escolhida há décadas. Se prender ao passado por medo do futuro é o auge da covardia vil. Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.