Rita Lee, sem filtros e sem mitos – apenas ela mesma

Rita Lee e Roberto de Carvalho (Foto: Reprodução / OGlobo)

Nando Gross

Assisti ao documentário “Rita Lee: Mania de Você” e saí com uma certeza: todo mundo deveria ver. Não importa se você é fã de longa data ou se conhece a Rita apenas por nome – a obra disponível na plataforma Max é uma aula não só de música, mas de humanidade.

O filme apresenta Rita como ela realmente era: autêntica, afiada, carismática, vulnerável quando precisava ser e dona de uma força incomum. Uma das cenas mais marcantes gira em torno de um momento difícil de sua vida – a prisão por suposta posse de entorpecentes, em 1976. Dentro da cela, grávida de seu primeiro filho, ela escreve uma carta ao namorado Roberto de Carvalho. Na carta, diz que está grávida, mas o libera de qualquer obrigação. É de uma generosidade, de uma autonomia e de uma clareza que me tocaram profundamente. Rita era livre até no momento mais aprisionado de sua vida.

Esse é só um dos muitos recortes que o documentário nos oferece para enxergá-la como mais do que como artista: como mulher. Como ser humano.

A condução do projeto por Guido Goldberg, um argentino que cresceu ouvindo os discos da Rita que sua mãe adorava, revela-se um trunfo. Por estar distante do furor popular e do endeusamento, ele cria um retrato equilibrado, sem cair no sensacionalismo nem na bajulação. A história é contada a partir das próprias palavras da Rita, de entrevistas antigas, de familiares, amigos, parceiros musicais e nomes gigantes como Gilberto Gil e Ney Matogrosso. É emocionante e, ao mesmo tempo, didático. Você entende quem ela foi, mesmo que não tenha vivido a Rita ao vivo.

Também é preciso reconhecer o trabalho incrível de João Lee, filho de Rita, que se dedicou a resgatar imagens raras. É impossível não sentir a presença dela o tempo todo: nas palavras, nas canções, nos olhares, no humor ácido e na ternura.

“Mania de Você” não é apenas sobre Rita Lee, a maior roqueira brasileira de todos os tempos. É sobre o poder de ser quem se é, sem pedir licença. Recomendo com todas as letras. Porque conhecer Rita é entender melhor o Brasil. E, talvez, a nós mesmos.