Apologia da não-maternidade

Cláudia de Marchi

O sonho de ter filhos sempre me pareceu algo bastante narcisista em algumas pessoas. Todavia, se outrora tal anseio era romantizado graças a absurdos como o tal do “ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”, hoje em dia sabemos que a família é rainha máxima da sociedade capitalista, uma “invenção do capital para o capital” como nos disse a necessária Silvia Federici (2021, p. 32).

O trabalho doméstico das mulheres e a família são os pilares de produção do desenvolvimento capitalista cujas condições variam de país para país, pois em alguns a reprodução é imposta, noutros evitada, especialmente para mulheres negras e pobres que precisam de auxílio social do Estado; em alguns se produz força do trabalho para os campos, noutros a demanda existente é especializada e técnica, de toda sorte, a função exercida pela mulher, para o capital, é sempre a mesma: reproduzir e cuidar das crianças, futuras mãos de obra, e garantir que elas também venham a atuar da maneira esperada pelo capitalismo. (FEDERICI, p. 28-29)

            Hoje em dia, especialmente, entre as pessoas de maior capital cultural, a constituição de uma família com filhos não é prioridade. Emergência climática, instabilidade quanto ao futuro, decaimento da romantização da maternidade e dos ideais de amor romântico, reproduzidos e ansiados no passado, são alguns dos fatores para essa evolução que, obviamente, não é unânime.

            O anseio por ter filhos não é algo por si narcisista, muitas pessoas desejam ter filhos por belas razões, todavia, muitas ainda o fazem para “cumprir tabela” na ordem do que introjetaram ser necessário para serem, pelos outros, consideradas “bem-sucedidas”. Outras pessoas não refletem, apenas querem passar os seus genes adiante e verem-se espelhadas na criatura que trarão ao mundo desejando, inclusive, realizarem os seus próprios sonhos através dela. Se existe algo mais narcisista do que isso eu desconheço. Isso serve para quem tem filhos com o fito de ter cuidado depois da terceira idade.

            “Quero ter filhos, pois adoro crianças”, dizem algumas pessoas. Ora, filhos crescem, são responsabilidade eterna apesar de conquistarem a independência financeira. Crianças se tornam pessoas adultas e, em muitos casos, graças a falta de zelo dos pais e/ou da sua carência de preparo psíquico, serão problemáticas e infelizes. Educar dá trabalho e requer atenção e foco que boa parte das criaturas habitantes deste planeta não detém.

            Até quando os pais e mães fazem terapia e se dedicam esmeradamente na educação dos rebentos coisas inesperadas podem ocorrer, afinal a tecnologia e a competitividade andam juntas tendendo a macular a autoestima de muitas crianças, adolescentes e jovens lhes levando a necessidade de tratamento psiquiátrico cada vez mais precocemente.

            A série Adolescência, sucesso recente da Netflix, reflete os perigos do mundo atual para mentes fracas. E ninguém sabe se terá um filho intelectualmente potente ou não, mentalmente são ou não. A educação é boa parte do caminho, mas sempre existem questões independentes da vontade dos pais, eis um fato. Por mais dedicados que sejam a mãe e o pai na arte de educar, não há garantia de muitas coisas, ou seja, a maternidade acarreta alguns sustos. Além de preocupações. Além de noites sem dormir. Além de elevar o cortisol.

            Hoje sabemos que o “instinto maternal” é uma ficção, um mito. Em um mundo onde muitas mulheres se deparam com jornada tripla de trabalho, cansaço, competitividade profissional, salários ruins e relacionamentos cada vez mais “líquidos” e superficiais, o cansaço psíquico prepondera, a saúde mental pede socorro. Não consigo vislumbrar nessas mulheres condições para educar um ser humano, mais um fator de estresse em suas vidas apesar da negação daquelas que já são mães.

            Não ser mãe, porém, é escolha disruptiva que incomoda a sociedade. Nos dedicam uma série de adjetivos desnecessários, o mais comum é o “egoísta”. Como se colocar uma vida num planeta destruído diariamente pelo ser humano em nome de sua ganância fosse ato de generosidade! Não ter filhos nos propicia vasta liberdade e o mainstream odeia mulheres livres. Então as feministas surgem afirmando que a maternidade não nos impede de nada. Falácia fajuta e delirante: no mundo como ele deveria ser mulheres e homens são cobrados de forma igualitária, no mundo como ele é, não.

            No mundo como ele é, a mãe que age como um pai é condenada. No mundo como ele é, 8 em 10 vezes a guarda da criança é da mãe. No mundo como ele é, mãe que sai para festas e se embriagar é julgada como irresponsável. No mundo como ele é, muitos homens desejam engravidar a parceira para tê-las mais “mansas”. No mundo como ele é, a maternidade responsável impede uma mulher de ser plenamente livre.

            Nos cobram filhos, falam em “relógio biológico”, dizem que seremos solitárias na velhice para nos incentivar a ter filhos e ainda nos chamam de egoístas! Parir para ter um cuidador ou uma cuidadora de idosos no futuro é um argumento minimamente plausível? Pergunta retórica. Nos cobram filhos, nos pagam mal, nos julgam e nos criticam: a maternidade aprisiona mulheres.

Não ser mãe é revolucionário! Revolução epicurista que prejudica o sistema capitalista e nos permite viver a nossa liberdade ao máximo sem um eterno vínculo com uma pessoa que, primeiro, nos engorda, depois prejudica os nossos seios e tira o nosso sono, nos causa preocupação desde o momento em que nasce, nos envelhece e, ainda, pode se mostrar uma criatura tenebrosa apesar do nosso esforço em educar uma boa pessoa.

Referência:

FEDERICI, S. Planejamento contraestratégico na cozinha (1975) In: FEDERICI, S. O patriarcado do salário: notas sobre Marx, gênero e feminismo.  Volume 1. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2021.