Submissão ideológica e retrocesso: o vexame da Eduardo Holmes Produções com o cancelamento do show do IRA!

 Foto: Ana Karina Zaratin

O cancelamento do show da banda IRA!, marcado para o dia 7 de novembro no Teatro Feevale, em Novo Hamburgo, representa mais do que a simples retirada de um evento da agenda cultural da cidade. É um sintoma grave de como a produção cultural pode se dobrar, covardemente, a pressões ideológicas, travestindo censura e intolerância em argumentos mercadológicos frágeis e convenientes.

A responsável pela decisão, a Eduardo Holmes Produções, alega que a polêmica envolvendo o vocalista Nasi, após manifestações políticas durante um show em Minas Gerais, comprometeu a bilheteria. Mas o que está em jogo aqui não é a viabilidade financeira de um show, e sim a submissão de uma produtora cultural ao medo da opinião pública conservadora, disfarçada de prudência logística.


Quando a cultura se ajoelha

Eduardo Holmes, com seus “40 anos de experiência”, preferiu jogar a toalha diante de um suposto risco de reembolsos — que, segundo ele próprio, sequer chegaram a ser solicitados. A cultura, mais uma vez, foi a primeira a ser sacrificada em nome de uma suposta neutralidade. Uma neutralidade que, na prática, é cumplicidade com a intolerância.

Ao afirmar que “não se sente confortável em realizar um show com essa posição ideológica”, Holmes reforça a ideia de que artistas só são bem-vindos se mantiverem silêncio político — uma postura absolutamente paradoxal para quem lida com música, arte e expressão.


Feevale e Novo Hamburgo: silêncio constrangedor

O mais grave, porém, é o envolvimento da Feevale, uma universidade — espaço que deveria ser, por essência, plural, tolerante e aberto ao debate. Ao aceitar o cancelamento de uma apresentação de um dos grupos mais importantes da história do rock brasileiro por razões ideológicas, a instituição mancha sua reputação e envia uma mensagem perigosa: em Novo Hamburgo, a arte é bem-vinda apenas quando silencia.

Para uma cidade que se posiciona como polo universitário e cultural, a decisão soa retrógrada e intransigente. A censura não precisa mais de decreto: ela se instala no medo, na omissão e na conveniência.


A arte não é confortável — e nunca foi

Nasi e o IRA! nunca foram neutros. Sempre disseram o que pensam. Sempre incomodaram. E é exatamente isso que os torna relevantes. A arte não é feita para agradar plateias passivamente. Ela provoca, questiona, desinstala.

Negar isso é negar a própria função social da música e da cultura. E, nesse caso, é também negar o direito do público de escolher o que quer ouvir e ver.


Porto Alegre x Novo Hamburgo: duas cidades, dois caminhos

Enquanto o show em Porto Alegre, produzido pela Trilha Entretenimento, segue confirmado e com excelente procura de ingressos, Novo Hamburgo entra para a lista de cidades que preferem o silêncio à diversidade. A capital gaúcha demonstra maturidade cultural ao entender que a arte é, por natureza, plural. Já Novo Hamburgo se apequena, se fecha em si mesma, e mostra que não está pronta para lidar com a complexidade de um país em transformação.


O que fica?

Fica o vexame de uma produtora que confunde produção cultural com gestão de danos ideológicos. Fica o constrangimento de uma universidade que não defende o pensamento livre. Fica a desilusão de uma cidade que recua no tempo e na mentalidade. E fica, sobretudo, o alerta: a censura não precisa de farda — ela pode usar terno, falar em nome da logística, e se abrigar em palcos que se recusam a ser ocupados.


Cultura não se negocia. Se defende.
E a história cobrará caro de quem escolhe o lado errado.