Cláudia de Marchi
Eu já escrevi que sou uma mulher exausta com uma série de processos de lutos que não tive tempo de vivenciar, pois nunca consegui descansar, certo? Quem acompanha a minha escrita sabe: foram mudanças, algumas inesperadas, outras planejadas, em cima de mudanças, magníficas ou banais, mas sempre estressantes — como qualquer mudança é para uma pessoa ordenada e ansiosa, — com a vida requerendo muito de mim, criatura de muita coragem e audácia, pago um preço há uns anos: a exaustão psíquica, avantajada por aquele caso que norteia o meu novo livro, Caótica. Bem, eventualmente, nos últimos dois anos, tive algumas crises.
Em meados de 2024 tive uma derrocada mental após um sujeito idoso, de Brasília, que me contratou como ghostwriter se confessar, em minha volta ao RS, apaixonado, me obrigando, assim, a cancelar o contrato. Essa eu chamei de “crise da Cláudia objetificada”. Foi intensa, o assédio me acionou gatilhos terríveis, mas passou. Entre o penúltimo sábado, lançamento de Caótica, e quarta-feira passada (02/04), vivi a “crise da Cláudia órfã de pai vivo”, foi curta e esclarecedora, terminou enredando-se com aquela de 2024. Sobre tal esclarecimento, passo a lhes contar.
Eu tive um pai durante a minha infância. O seu Hilário José de Marchi foi excelente até eu começar a formar as minhas opiniões acerca de religião e política, todas oriundas de muito estudo e, claro, ciência. Isso aconteceu quando eu tinha uns 10-11 anos de idade. Posteriormente, quando ele se sentiu muito “rico”, passou a se afastar da bela e dedicada esposa. No entanto, o casamento foi empurrado por mais 12 anos, afinal mulheres acomodadas e homens acovardados costumam fazer isso com anos de suas vidas: desperdiçá-los em relações moribundas.
Entretanto, existe ex-marido, ex-namorado, ex-amigo, porém nunca existirá ex-pai: o divórcio nunca é o problema — na verdade costuma ser uma solução digna diante do fim da beleza amorosa, — o afastamento dos filhos é. Não existe ex-pai, mas eu tenho um e essa “orfandade” sempre dói desde que rompi relações com ele, em 2021, e obtenho algum êxito na vida, seja concluir o mestrado, ingressar no doutorado com bolsa integral ou publicar livros. O meu pai é um machista que nunca suportou ouvir a opinião de uma mulher. O que ele passou a odiar em mim desde a minha infância era o fato de eu manifestar as minhas opiniões ao contrário da esposa dele. Foi o prelúdio do meu empoderamento que assustou um homem fraco de ego frágil como todos os que o sucederam em minha vida.
Com a pequena crise de “pobre menina sem pai” — inclusive, tenho uma crônica que posto todos os anos no dia dos pais chamada Ontem eu matei o meu pai, para contemplar quem, como eu, precisou declinar do convívio com o próprio genitor — a iluminação psicanalítica brilhou áurea para mim e todas as causas dos meus fracassos amorosos ficaram límpidas: eu mesma e meu ego ferido, na infância, por aquele que deveria me acolher e respeitar. Freud bateu palmas para mim, apesar do atraso em minha jornada de autodescoberta: eu nunca me senti amada por um homem, porque nunca fui! Como ocorreu com o Hilário, o meu jeito de ser lhes incomodava, mas a beleza e o sexo os cativavam, então eles queriam muito estar comigo, ainda que o meu cérebro, os meus escritos e a minha forma de ser, de pensar e de viver em nada os cativasse.
A tal “crise da Cláudia objetificada” que me fez ensandecer em junho de 2024 e teve gatilho no assédio de um cidadão que deveria me admirar pela minha habilidade de escrita é derivada dessa crise que trago desde a infância, a de ser órfã de pai vivo, afinal, não existe relação entre pai e filha que não tenha por base o respeito recíproco a opiniões de toda ordem. Eu matei o meu pai da minha vida em 2021, mas ele pedia por tal óbito desde os meus 10 anos. E essa rejeição intelectual atinge a autoestima de uma criança. E todos nós, adultos, somos as crianças que fomos.
Enfim, a questão de ter sido respeitada pelo pai só antes de ter opiniões formadas (com base em estudo em excelentes escolas pago por ele!) foi o caminho para a compreensão da falência que vivi em minha vida amorosa na qual eu era muito maravilhosa como bela e cálida boneca, mas muito “cheia de ideias” para os homens que me juraram amor sem nunca me amar.
Isso sem contar a insegurança sexual daqueles sujeitos diante de uma mulher com demasiada libido, e, também, o seu infantil medo do abandono fruto de insegurança emocional, pelo fato de, sendo tal mulher bonita e inteligente, poder deixar-lhes facilmente se frustrada. Pulula na mente (fraca) da maioria dos homens a ideia de que mulheres atraentes e libidinosas são perigosas, pois podem lhes trair e abandonar, logo, com estas eles querem sexo, para amar preferem as “medianas”, na aparência e na calidez. Isso, no entanto, pode ser objeto de uma outra crônica, quiçá de um livro!
Escancarar essa ferida narcísica que tenho e foi aflorada com a crise após o lançamento de Caótica muito me valeu, ficou mais claro, para mim, quem sou e onde errei em minhas escolhas de mulher bela, mas carente, enfim, “brilhou o sol onde foi breu” e, talvez, agora a minha vida comece, valendo-me aqui da bela música Recomeço, do talentosíssimo Antonio Villeroy. Talvez reconhecer a insegurança que me colocou em tantas relações amorosamente insuficientes salve, no futuro, a Cláudia que sempre ostentou autoestima, mas nem sempre a teve.
Ora, eu quero um homem que leia o que eu escrevo, que tenha curiosidade pela minha vida, pelas minhas pesquisas, que deseje lê-las para conversar comigo sobre elas, para dar a sua opinião, para trocar ideias de forma respeitosa e doce. O mesmo que eu ofereci para todos com quem estive: interesse, cuidado, escuta. Eu quero um homem que saiba que eu sou um furacão sexual, mas imensamente mansa no convívio. Retifico: convívio respeitoso, onde há diálogo, vontade de construir um relacionamento, empatia e cuidado recíproco. Eu quero um homem que cumpra o que diz, que lembre do que me conta, não quero um que chega prometendo muito e entregando egoísmo, narcisismo e distração. Eu, eu, eu, opa, só mais um pouco: eu, eu, eu, eu, os meus problemas acima dos seus, eu acima de tudo, eu, eu, eu e minha vida de merda que eu mesmo escolhi viver e mais, eu, eu, eu! Você? Mas quem é você, afinal? Ah, tá, lembrei. Vamos trepar!
Eu não só quero como mereço um homem que não projete em mim os seus preconceitos misóginos, os seus traumas passados e as suas inseguranças. Um homem que não tenha medo das minhas palavras, mas saiba conversar comigo e descobrir que sou terna, transigente e, em muitos aspectos, servil quando vivo um amor, pois faço o possível e o impossível para fazer quem eu amo feliz, porém nunca encontrei um homem que me visse como sou e se permitisse me conhecer e compartilhar suas esquisitices e solidão comigo. De toda sorte, eu sigo só como sempre fui, mas nunca mais derrapando naqueles que se encantam pela minha calidez, sexualidade e aparência e, pelas mesmas razões, se assustam e me menosprezam. É preciso ter muita autoconfiança e autoestima para amar uma mulher como eu, azar dos que não tiveram e, claro, meu por me permitir insistir neles.
Na falta de um que não seja o Hilário travestido em Miltons, Jamils, Ricardos, Nédios, dentre outros, seguirei a minha vida plenamente só, intelectualmente profícua, vivenciando o universo criativo da minha mente, cercada de gatos e praticando o celibato pagão com o qual venho vivendo desde 2024: me “desvalorizando” — a mulher moderna que não monetiza o sexo deve escolher entre se valorizar ou transar, então eu me permito umas resvaladas na autovalorização — uma vez a cada 4-6 meses para ter sexo com algum homem sem compromisso com ninguém, conhecido, inteligente, bom de cama, bem-dotado, mas complicado ou inseguro para um relacionamento sério, me (re)valorizando em seguida e seguindo a vida até cometer o mesmo lapso com o mesmo afortunado. Como eu já disse em rede nacional: sexo para mim é como chocolate, se eu tenho em casa como sem autocontrole, se não tenho, não saio procurar. Para quem não sabe, eu devo comprar chocolates a cada Páscoa e olhe lá! Na verdade, não compro, eu ganho. Gosto muito de transar, mas não gosto de 99% dos homens, então eu cruzo as pernas e sou feliz sozinha. Escrevendo muito, trepando pouco.