Foto: Filipe Karam/ PMPA
O evento Vivo Música será realizado neste domingo, 6 de abril, a partir das 17h, no Parque Harmonia, em Porto Alegre. Com entrada gratuita e ao ar livre, o projeto reúne atrações da música popular e de concerto, incluindo os shows de Nando Reis e Adriana Calcanhoto, que se apresentará também ao lado da Orquestra Theatro São Pedro, sob regência do maestro Evandro Matté.
A abertura ficará por conta do grupo Ngoma – Tambores da Bonja, projeto sociocultural da cidade, com participação do cantor e compositor Thiago Ramil. O evento tem apoio da Lei de Incentivo à Cultura, por meio do Ministério da Cultura.
Críticas à escolha do local
A realização do evento no Parque Harmonia tem sido alvo de críticas por parte de movimentos sociais e ambientais. Os grupos Atuapoa e Movimento Salve o Harmonia enviaram uma carta à produtora responsável pelo show, questionando a escolha do local para a apresentação e sugerindo como alternativa o Anfiteatro Pôr do Sol, também situado na orla da cidade.
Na carta, os movimentos relatam que, desde a concessão do Parque Harmonia à iniciativa privada — atualmente sob gestão da empresa Gam3Park —, o espaço passou por alterações consideradas prejudiciais ao meio ambiente. O documento menciona a remoção de centenas de árvores, a substituição de áreas verdes por asfalto e calçamento, e a alteração do habitat de 85 espécies de aves registradas anteriormente no local.
Os autores também citam estudos recentes que apontam aumento da temperatura média no parque, atribuído à ampliação das superfícies de concreto e à redução da vegetação.

Foto: Gabriel Poester
Contexto judicial e apelo aos artistas
Segundo os movimentos, há uma ação judicial em andamento que solicita uma liminar para avaliar os impactos ambientais das obras da concessionária. A carta afirma que realizar um evento cultural de grande porte nesse contexto pode ser interpretado como legitimação de um modelo urbano que prioriza negócios em detrimento de áreas públicas e verdes.
O texto, assinado por 23 entidades, também destaca que a carta não foi enviada diretamente aos artistas, por falta de contato com suas equipes, mas afirma que muitos músicos possivelmente não têm conhecimento da situação atual do Parque Harmonia.
“Sabemos que muitos artistas não têm conhecimento dessa situação e talvez não tenham sido informados sobre os impactos causados no Parque da Harmonia, apesar dos protestos e mobilizações de parte da sociedade porto-alegrense”, afirma o documento.
Os movimentos sugerem que o Anfiteatro Pôr do Sol, espaço tradicional de eventos e atualmente em estado de abandono, poderia receber o show. Eles alertam que a falta de uso do local pode ser parte de uma estratégia para justificar uma possível privatização futura, a exemplo do que ocorreu com o Parque Harmonia.
Histórico de mobilizações
Esta é a segunda vez que movimentos sociais se posicionam contra a realização de eventos no Parque Harmonia. Em julho de 2023, durante a preparação do Festival Turá, uma carta semelhante foi enviada a artistas como Caetano Veloso, Emicida, Alceu Valença, Pitty e outros. Na ocasião, a pressão resultou na transferência do evento para o Anfiteatro Pôr do Sol.
Organização e posicionamento
A empresa Vivo, idealizadora do projeto, afirma que o Vivo Música tem como objetivo conectar diferentes expressões culturais e promover encontros entre artistas e público. Em nota anterior, a diretora de Marca e Comunicação da empresa, Marina Daineze, declarou:
“O Vivo Música é nosso projeto que reforça o apoio da marca à cultura em todo o Brasil, por meio de novas conexões artísticas, exaltando a pluralidade do país e seus artistas.”
Até o momento, a organização do evento não se pronunciou sobre a carta enviada pelos movimentos sociais.
Serviço
🎶 Evento: Vivo Música
📍 Local: Parque Harmonia – Porto Alegre/RS
📅 Data: Domingo, 06 de abril de 2025
🕔 Horário: A partir das 17h
🎫 Entrada: Gratuita
🎤 Atrações: Ngoma – Tambores da Bonja, Thiago Ramil, Adriana Calcanhoto, Orquestra Theatro São Pedro e Nando Reis
🧾 Realização: Vivo, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura e do Ministério da Cultura
A apresentação é aberta ao público e não exige retirada prévia de ingressos. A recomendação é que o público leve cadeiras, mantas ou cangas para acomodação no espaço. O evento ocorre em meio a um debate crescente sobre a destinação e o uso de áreas públicas em Porto Alegre.
Leia, abaixo, a íntegra da carta:
Porto Alegre, 26 de março de 2025.
Prezados(as)
Adriana Calcanhotto
Nando Reis
Integrantes da Orquestra Theatro São Pedro
Produção do evento Vivo Música
Recebam nosso cumprimento pelo talento e pela contribuição inestimável à
cultura brasileira. Dirigimos esta carta a vocês não com qualquer objeção à arte, mas sim
para alertar sobre o contexto do evento programado para o dia 6 de abril no Parque
Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido originalmente como Parque Harmonia.
Ocorre que este espaço verde, historicamente público, foi severamente
alterado após sua concessão à iniciativa privada. Centenas de árvores foram removidas,
áreas verdes foram substituídas por calçamento e asfalto, a fauna local teve destruído
seus habitats, destacando-se o registro de 85 espécies de aves, sendo que o projeto
inclui a construção de inúmeras edificações que descaracterizam sua função original.
Esse processo tem sido questionado judicialmente pelos movimentos sociais,
ATUAPOA e Movimento Salve o Harmonia, que incluem dezenas de entidades
ambientalistas e de cunho social e sindical, e o que busca preservar a qualidade de vida
em Porto Alegre. Recentemente, estudos demonstraram um significativo aumento da
temperatura no local, ou potenciais ilhas de calor, em razão da ampliação das áreas de
concreto e asfalto sobre o parque, e uma liminar foi requerida recentemente para avaliar
os impactos ambientais.
A realização de um evento desse porte no parque, justamente quando se
discute a legalidade das intervenções, reforça um processo de legitimação de um modelo
de cidade que substitui suas áreas verdes públicas e o patrimônio ambiental urbano em
áreas de negócios. Sabemos que muitos artistas não têm conhecimento dessa situação
e talvez não tenham sido informados sobre os impactos causados no Parque da
Harmonia, apesar dos protestos e mobilizações de parte da sociedade porto-alegrense.
É importante lembrar que o evento é financiado pela Lei de Incentivo à Cultura
(Lei Rouanet), ou seja, com recursos públicos. Diante disso, questionamos: por que um
show dessa relevância não ocorre em outros espaços, no Anfiteatro Pôr-do-Sol,
localizado na mesma região e já estruturado para apresentações musicais? Esse
espaço, que também pertence à cidade, vem sendo gradativamente negligenciado pelo
poder público, o que reforça a preocupação de que a sua deterioração esteja sendo
utilizada como justificativa para uma outra futura “privatização”, assim como ocorreu com
o parque escolhido para o evento.
Sabemos que projetos culturais incentivados pela Lei Rouanet possuem
contrapartidas sociais, e reconhecemos a importância da participação do Ngoma –
Tambores da Bonja, grupo que há anos promove inclusão social por meio da música. No
entanto, é fundamental que essa iniciativa não seja utilizada para ofuscar os impactos
negativos da destruição associada à concessão do parque. A valorização da cultura e a
preservação dos espaços públicos devem caminhar juntas, sem que a inclusão social
sirva de justificativa para desconsiderar os danos ambientais e urbanísticos em
andamento.
Nosso objetivo com esta carta é chamar atenção para essa realidade e
convidá-los a refletir sobre a escolha do local para o show. A música e a arte são potentes
formas de expressão, e seria valioso que essa apresentação não fosse utilizada para
consolidar um processo de destruição que afeta agora o Parque Harmonia de um dos
mais importantes espaços verdes da cidade.
Atenciosamente,
Acesso Cidadania e Direitos Humanos
AMPD Ambiental (Associação Mães e Pais pela Democracia)
Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan)
Coletivo A Cidade que Queremos
Coletivo Cais Cultural Já
Coletivo Preserva POA
Coletivo Preserva Redenção
Emancipa Comunidades
Fórum Socioambientalista – Núcleo de Defesa Ambiental/DPE-RS
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico – IBDU
Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá
Mãos Arquitetura_Terra_Território
Marcha Mundial das Mulheres RS
Movimento ATUAPOA – todxs nós pelo direito à cidade.
Movimento Salve o Harmonia
Núcleo Ecossocialista e Núcleo de direito a cidade do MES/PSOL.
Ong Resistência Participativa/Despertar Coletivo
Preserva Parque Marinha
Rede Jubileu Sul Brasil
Rede PreservaPoa
SerAção
União Nacional por Moradia Popular/RS
União Protetora do Ambiente Natural – UPAN
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