O cansaço feminino

Cláudia de Marchi

O machismo cansa. Explicar para homens porque determinadas atitudes e falas são machistas, cansa. E falo aqui em explicar para homens em fase de desconstrução, homens que pretendem abdicar do machismo estrutural, pois com machista orgulhoso a gente não deve desperdiçar saliva. Não vale a pena, é desgaste inócuo.

Encarar o didatismo de homens sobre assuntos que conhecemos é muito desagradável. O menosprezo extenua. Recentemente, no campus, durante um almoço, um conhecido do meio acadêmico lembrou-me de atualizar meu Lattes com minhas produções. Eu sou pesquisadora. Eu estou fazendo doutorado. Eu sou bolsista CAPES. E ele sabe. Logo, sorri educadamente enquanto fervia de raiva por dentro. Na maioria das vezes a ofensa ao intelecto feminino não se consubstancia em dizer “você é burra”, mas em tratar a mulher como se ela fosse limitada intelectualmente. E sobre esse assunto precisamos falar mais detidamente, talvez noutro momento, porque o meu cansaço não me permite esmiuçá-lo agora.

Sim, nós mulheres estamos cansadas e esse cansaço gera ira. Estamos furiosas, pois exaustas. Falamos, não somos ouvidas. Gritamos, somos loucas. Pedimos o que queremos, somos ignoradas. Exigimos, somos desequilibradas. Desabafamos, somos obliteradas. Reclamamos, somos agressivas. Se deixamos as lágrimas de indignação verterem, somos excessivamente sensíveis ou dramáticas.

Outra boa forma de silenciar as mulheres é definir suas atitudes de acordo com seus supostos níveis hormonais ou, claro, ausência ou não de um falo que lhes conceda respaldo. É a tal da TPM, é o tal do “tá precisando transar”. Uma ex aluna, quando seu grupinho foi repreendido por estar conversando durante uma de minhas aulas de Direito das Obrigações, me disse que eu precisava encontrar um namorado novo. Eu estava solteira há uma semana.

Além de tudo, temos que encarar a reprodução do machismo por parte de mulheres. Inclusive das feministas radicais, sempre tão altivas quanto insensatas. Na toada da exaustão temos que enfrentar também o assédio; homens inconvenientes no local de trabalho e/ou estudo; sujeitos esquizoides que confundem boa educação com concessão de liberdade excessiva. E, haveremos de convir, se tem uma coisa que homem gosta muito é de ultrapassar os limites da sensatez.

Eles, seres tão limitados, cujo ego infla tão facilmente! Nunca me esquecerei do R.: nos conhecemos no Tinder em 2014, saímos jantar num final de semana e na semana seguinte rolou a intimidade sexual. Eu estava lá, animada e me divertindo quando ouço: “Se isso não é amor, não sei o que é.” Namoramos por mais um tempo, ele me apresentou toda a sua família numa viagem que fizemos à Brasília e eu terminei o relacionamento ao aportarmos de volta no Mato Grosso. Ele tinha dois filhos lindos, mas bem pequenininhos. Eu me assustei com a situação e rompi. Acho que ali ele descobriu que foi traído pelo próprio ego. Não era amor, era tesão.

Por que eu estou dando exemplos pessoais tão distintos entre si? Porque eu tenho diversos! E para os mais variados casos de machismo que podem vitimar uma mulher branca heterossexual. O fato é que a gente não descansa de ser mulher, não podemos tirar férias de ser mulher, então os exemplos vão se acumulando, a gente vai se avariando psicologicamente, mas não explode. Não por fora, claro. Por dentro a gente arde, a gente queima, a gente berra!

Eu, não contente em ser mulher, resolvi virar puta! Sim, puta. Sempre primei por ser chamada de acompanhante de luxo ou cortesã. Distinguia minha atitude das demais por nunca ter feito do sexo um trabalho. Também nunca suportei o vulgar termo “garota de programa”, uma vez que sou mulher, não garota. E, era uma cortesã seletiva, cheia de revolta e imposições, o que me levou à fama, inclusive. Mas, aqui registro essa parte do meu passado com a palavra que os machistas e as mulheres que reproduzem o machismo adoram: puta.

O preconceito com essa figura marginal que a sociedade tanto abomina e teme, pois expõe a fragilidade de seus laços afetivos, amorosos e sexuais, é quase unânime: gays não putas (os) não gostam das putas, negros e negras não putas (os), não gostam das putas, trans, queers e toda sorte de minoria que pugna por respeito social, mas não é puta, tende a não gostar das putas ou ter empatia com a sua classe. Aparentemente, só as putas lutam pelas putas, não à toa muita gente acha que as prostitutas só têm ou devem ter amigas que pratiquem o sexo remunerado.

A minha curtíssima carreira de cortesã ficou no passado, mas ela ainda reverbera. A marginalidade da puta me acompanha ainda e com ela tudo o que vivi como professora, como advogada e como estudante soa ainda mais cansativo, pois eu nunca consegui descansar. Se a palavra da mulher não vale muito, a da puta sequer existe, inclusive porque ela representa o oposto da esposa, e apenas essa merece consideração na sociedade patriarcal, pois suas virtudes são avalizadas por um homem.

Vivencio, portanto desconfianças constantes. Eles têm curiosidade sobre mim, mas desconfiam do meu caráter, desconfiam do meu intelecto, desconfiam das minhas palavras. Desconfiam até do meu passado, da minha história, da trajetória que nunca escondi. Do mundo, recebo menosprezo e subestimação, enquanto minha mente se debate entre ansiedade, ódio e revolta.

Afinal de contas, por que eu fui me tornar acompanhante de luxo? Se eu quisesse ser respeitada deveria ter me casado novamente e seguido advogando e lecionando no interior do país como mulheres dignas e talentosas fariam — meu talento como advogada e professora também foi questionado ao longo dos últimos anos. Enfim eu poderia ter feito qualquer coisa, mas resolvi abrir ao mundo minha apetência sexual num período em que tudo o que eu não queria era viver (mais) um romance heteroafetivo e ser castigada pelo capitalismo com jornada de trabalho de mais de 8 horas diárias como eu era acostumada. Todavia, como todo castigo pra puta é pouco, então hoje eu padeço.

A mulher que queria ser colunista de crônicas em jornal famoso terminou sendo matéria nele. Melhor que nada! Eu fiz o melhor que pude com o que a vida resolveu fazer comigo. Fiz muita gente anônima e insignificante ter que me engolir. Meu ódio ao patriarcado me deu a chance de falar e ser ouvida, ainda que incompreendida. De escrever e ser lida. Ainda que tenha escrito e falado algumas asneiras, sempre fui verdadeira: minha personalidade tem compromisso com a transparência. Com a transparência que grita e retumba na hipocrisia de cada homem, de cada mulher, de cada família de comercial de margarina que se mantêm com base na monogamia unilateral feminina ou em infidelidades recíprocas em prol das aparências e fotografias bonitas em redes sociais.

Tudo tem um preço, porém. E aqui escreve uma mulher exausta. Uma mulher que luta sozinha. Uma mulher machucada, sem dúvida. Uma mulher que sempre apanhou por querer ser respeitada, por querer ter sua história retratada fidedignamente num mundo em que homens heterossexuais se sentem no direito de deturpá-la e outros colocam sua credibilidade em cheque. Uma vez puta, sempre puta. E putas são traiçoeiras, ardilosas e falsas. Elas mentem, elas enganam, elas só querem lucro fácil e nada além. Putas sequer amam, putas iludem.

Como toda mulher eu sou cansada. Como mulher que foi acompanhante de luxo famosa eu estou exaurida, mas persisto. Persisto, porque é isso que nós mulheres fazemos. Foi o que eu vi minha mãe fazer a vida inteira e é o que eu faço desde sempre, apesar do arrebatamento das forças e da exaustão. Eu sou mulher, para além de buscar ter forças, a força me encontra, então eu luto.