Os trastes velhos e a inutilidade da beleza não monetizada

Cláudia de Marchi

No inverno passado, viajei para Brasília, adoentada com a primeira ferida de herpes labial que tive na vida, estressada pela viagem, pela escrita de um artigo que me exauriu e, claro, pelo cenário catastrófico que a incompetência política e ambiental causou em Porto Alegre. Fui para fechar um contrato de ghostwritter. Tudo correu bem, sem assédio ou nada assemelhado. Até eu voltar e o contratante confessar-se apaixonado. Rompi o contrato na força do ódio.

Fazendo pouco caso da situação, gatilho para inúmeros outros traumas, inclusive o que fez eu me evadir da vida dele, o meu ex-amante — que morrerá de vez na minha vida e na minha escrita, no dia 29/03/2025, com o lançamento de Caótica — disse que sou maledicente. Primeiramente, sou a criatura menos fofoqueira que conheço e, mais, eu faço “autofofocas”, pois a minha vida é uma tragicomédia; em segundo lugar, quando existe intimidade entre as pessoas elas deveriam poder desabafar sobre dores e assédios sem o receio de serem julgadas. No caso, era um macho que dizia para mim, em 2023, que era “só um traste velho”, — hoje sei que se tratava de uma fala sincera, quase um alerta! — defendendo outro traste (mais) velho.

O sujeito melancólico e saudosista que teve um caso comigo nunca me conheceu de verdade, tampouco conhecerá, pois jamais teve empatia. Azar o dele, não meu! Eu tive um traumático romance, forjado na inconsistência afetiva, com um bagaceira erudito. Um esquerdomacho que julga sem conhecer, que trai a mulher de forma descarada e que classifica as demais como deseja, da mesma forma com a qual todo machista medíocre age: essa é para trepar, essa é para admirar, essa é para galantear, essa é a magnífica senhora da qual devo puxar o saco (quiçá até transar!) e assim por diante, não esquecendo da esposa que é aquela que merece gratidão pelas abdicações e amor devotado.

Pensando, pois, nos fatos que se repetem, amargamente, em minha vida me recordei da frase do velho despudorado, Charles Bukowski, numa obra que não li, mas é comum para mim cruzar-me com ela na internet: “Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão”.

Não foram poucas as vezes nas quais caí aos prantos por me relacionar com homens que se diziam interessados em mim e não liam sequer uma página dos meus livros e dos meus artigos! Boa parte dos homens que me chegaram não ligaram para as minhas fragilidades humanas, demasiadamente humanas. Cansei de pensar que eu não era um ser humano de quem alguém sinta falta. Ouvia, isto sim, “ah, que saudade eu estava da tua boca!”. De uma parte erótica do meu corpo, não da Cláudia persona, do seu humor, da sua presença, do seu riso, das suas palavras!

Um ex-cliente da advocacia, de Sorriso/MT, incentivava o meu casamento com um namorado meu, agricultor riquíssimo, pois é isso que “mulheres bonitas devem fazer”, afinal o “cidadão de bem” neste país condena a prostituição exercida por mulheres livres, mas faz apologia ao casamento por mero interesse pecuniário. Outra forma da mulher trocar seu tempo por dinheiro com a concordância e condescendência de uma sociedade hipócrita.

Tal cliente ficou me devendo quase R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), inclusive. Desisti de cobrá-lo, assim como, na época, de amar, e fui com o meu FGTS e seguro-desemprego de professora universitária, para Brasília, usar a minha beleza e volúpia para o que, realmente, elas me serviram: ser cortesã. A beleza feminina, não raras vezes, só tem valor quando monetizada.

Existem, portanto, dias indolores, existem dias insossos, existem dias doloridos. 
Não, não falo aqui de dias nos quais nos ocorrem coisas tristes e horríveis, falo daqueles dias nos quais a nossa memória — ah, essa infeliz! — resolve jogar em nossa cara tudo aquilo sobre o qual evitamos pensar e confrontar. Coisas que, hipoteticamente, já perdoamos, dores que, afirmamos não mais sentirmos. Tudo, enfim, que negamos e sublimamos, às vezes, por um gatilho qualquer, vêm à tona e nos coloca num espaço pequeno, quase ínfimo dentro da nossa mente. Um espacinho apertado entre nós e os fatos que recalcamos e nos torturam impiedosamente.

Pode ser em um momento simplório como passar um batom na boca e lembrar dos elogios que você ouviu sobre ela. Sobre a saudade que alguém sente dela. Dela, não de você que, no quadro dos trastes velhos, está inserida na famosa gaveta da mulher para “pegar”. Quando eu trocava o “e” pelo “a”, a minha vida era mais fácil! Enfim, você que é um ser humano conhecido no mundo pelo que fala, não pelos beijos, não por nada além dos pensamentos que expressa, para alguns homens, é só a boca que beija e faz exímio sexo oral. Recordar certas situações nem sempre é viver, às vezes é morrer um pouquinho e lentamente. De pavor, ódio e angústia.