As prostitutas e o feminismo excludente e hipócrita

Eu sou a prova viva do poder da desconstrução de conceitos na vida de uma mulher. Vivi o suficiente para saber que as diferenças entre mulheres e homens não são meramente hormonais, elas provêm da criação, da educação, daquilo que, há milênios, vêm sendo incrustrado em nossas mentes e que, portanto, nos escraviza: o machismo. Ele atrofia os homens emocionalmente e castra a liberdade das mulheres obterem plenamente o prazer sexual, especialmente, daquelas criadas em famílias religiosas.

Nós temos desejos e nossos órgãos, nosso corpo e nossa libido não são conectados ao nosso coração: a gente pode fazer sexo por mera vontade de fazer sexo! A gente pode ter só vontade de ter uns orgasmos sem precisar de “eu te amo”, romance e relacionamento sério. A gente pode “usar” o corpo masculino para o nosso prazer, dizer “tchau”, tomar banho e dormir sozinha e feliz! Fazer sexo é um ato natural, querer transar, também é! Existe sexo com amor e existe sexo por prazer, mas não há necessidade alguma do romance para enfeitar o que costuma ser bom quando feito com desejo: a boa e velha foda.

Outra ideia a ser superada é a de que casamentos se consubstanciam, basicamente, no companheirismo. Não que ele não seja um de seus pilares, ocorre que há necessidade de haver tesão e paixão ou então haverá infidelidade e, neste caso, ou o casal “abre” o relacionamento e cada um vai procurar prazer sexual onde quiser ou sim, ocorrerão mentiras e omissões. Sexo bom e quente é sumamente importante na sincronia de uma relação realmente feliz, transparente, equilibrada e saudável, ignorar isso só serve para que se propague o machismo institucionalizado: os homens saciam-se fora de casa e as esposas seguem orgulhosas com suas famílias “perfeitas”. Isso, claro, quando não resolvem ser infiéis também, mas o importante mesmo é manter o casamento em nome das “aparências”.

A maioria das prostitutas não saem do armário, porque sofrem com o menosprezo até das feministas que insistem em colocá-las no vil papel de “vítimas” da sociedade e dos homens. “Vítimas”?! Quase todas as pessoas são, só que do maior cafetão de todos os tempos: o capitalismo. Neste momento, em quase todos os lugares do mundo pessoas despendem sua mão de obra em trabalhos que não lhes dão prazer algum, apenas porque precisam pagar suas contas e se manter. Na maioria das casas a “depressão dominical” bate ao fim da tarde, porque as pessoas sentem a ansiedade de, no dia seguinte, voltar ao local em que trabalham só pelo salário, para ter dinheiro para o happy hour e férias.

Sobre a figura do “homem algoz” e do ato sexual da prostituta tratar-se de um “estupro pago” – como as feministas radicais que praticam pouca empatia com as profissionais do sexo costumam dizer, – vejo uma, dentre tantas, ilogicidades: o homem serve para ser marido, namorado, companheiro, pai, mas quando paga pela hora na companhia de alguém, ele é o explorador, o abusador, o infeliz que está pagando pelo “consentimento” da mulher.

Ora, manter matrimonio assentado na dependência afetiva? Está ótimo! Manter união para não dividir patrimônio ativo e passivo (dívidas), está bem também. Aceitar infidelidade para não deixar a situação cômoda do casamento para trás? Está lindo! Não ter coragem para deixar de viver com alguém que se tornou uma colega de quarto ou segunda mãe, está magnífico.

Incentivar filhos e filhas a escolherem o rapaz ou a moça mais rica para namorarem e, futuramente, casarem-se? Bonito, maravilhoso! Dissociar da realidade para poder seguir uma vida insossa junto com alguém que já não lhe faz bem como um dia fez, está ótimo. Tudo isso é uma espécie de morte. A recusa do fim, nos termos da psicanálise, é viver preso àquilo que já foi. Sustentado, em boas lembranças, em bons sonhos, em grandes feitos, em momentos de outrora, quando ambos eram outras pessoas. Quiçá, mais afins e, portanto, felizes, entusiasmados!

A recusa do fim é a pulsão da morte em seu estado pleno. É beber vinhos magníficos para seguir adiante, apenas, adelante! Sem paixão, sem muito desejo, sem muito nada. É, pois, ficar, por ficar. Ficar porque é isso que o mundo espera que você faça. Ficar por covardia, por falta de ousadia, autoconfiança, amor-próprio e brio. Ficar, apenas ficar. Ficar e viver uma vida definida há muito tempo.

Mas o que incomoda a sociedade é o sexo remunerado! As prostitutas, de luxo ou de rua, oferecem seu tempo por hora determinada. Não forjam um amor que não sentem. Não dizem que amam para obterem vantagens. Falo, obviamente, da maioria. Até que ponto a sua esposa é uma prostituta de luxo — pois cara — que está ao seu lado só pelo comodismo e boa vida que você lhe oferece? Até que ponto a sua relação não virou uma troca: um concede ao outro comodismo e afagos e tem como contraprestação uma vida confortável e luxuosa dentro das suas possibilidades? O problema do mundo é apedrejar a prostituta numa sociedade repleta de relações calcadas na inocorrência de divisão de bens e no conforto ofertado pelo parceiro ou pela parceira.

“Mas, Cláudia você há de convir comigo que a sua antiga ‘profissão’ não era algo ‘normal’, né?!”. Respondo com Bertrand Russel: “O casamento é para as mulheres a forma mais comum de se manterem, e a quantidade de relações sexuais indesejadas que as mulheres têm de suportar é provavelmente maior no casamento do que na prostituição.”

Sobre o que eu fazia ‘não ser normal’, nessa sociedade hipócrita, é claro que não era! Normal é fingir orgasmo para agradar macho, normal é ser infiel, porque se sente carente em casa, normal é ser casado e ter um caso com uma mulher casada, porque é mais “seguro”, normal é paquerar desvairadamente toda bonitinha que enxerga. Normal é empurrar um casamento infeliz com a barriga por anos e comemorar bodas disso, bodas daquilo! Normal é transar com o chefe para emergir na carreira, normal é professor flertar com aluna e aluna se oferecer em troca de nota.

Normal é ir à igreja e falar mal dos outros diariamente, normal é ter filho para brincar de comercial de margarina, normal é dizer que só é completa com isso ou com aquilo. Normal é perdoar traição para ganhar cirurgia plástica. Tudo isso é normal, só o que eu fazia é que não era. A sociedade precisa, urgentemente, parar de achar que o costumeiro e hipócrita é paradigma de decência e corretude, porque, por alguns anos, eu paguei as minhas contas graças a essa hipocrisia.

Enfim, o feminismo radical que cala a voz das trabalhadoras sexuais não serve para coisa alguma! É mais um discurso hipócrita, preconceituoso e classista. Deixo aqui uma frase que ouvi no 16º episódio da 4ª temporada de Criminal Minds: “A prostituta não é, como as feministas dizem, uma vítima dos homens, mas sim a sua conquistadora. Uma fora da lei, que controla os canais do sexo entre natureza e cultura.” Em que pese não sejamos, no Brasil, “foras da lei”, a autora da frase, Camille Paglia, tem plena razão em sua afirmativa. Desde que a prostituta seja inteligente é ela quem comanda a relação e ainda lucra, podendo, como eu sempre disse, gerenciar riscos para evitar inconvenientes. Camille é uma feminista crítica às formas de feminismo que chama de “puritano” e “stalinista”.

Lançamento do livro: CAÓTICA – No Terezas Cafeteria e Restaurante (Giordano Bruno, 318 – POA – RS)