A corna por excelência (ou Carta aberta ao meu ex-amante).

Cláudia de Marchi

A amante é a corna mansa par excellence: a esposa traída pode não ter conhecimento de sua existência, logo, ela ocupa um lugar digno, por sua vez, a amante sabe da esposa, logo, fica em posição de passividade e indignidade porque deseja a companhia de um homem que, se a amasse, não lhe colocaria em tal reles posição. A amante é a prostituta sem dignidade, primeiro, porque não é indenizada pela posição subserviente na qual se insere, segundo, porque, em tese, ama, ou seja, sofre. Sofre e espera por um homem e sua disponibilidade de tempo longe da figura central de sua vida amorosa, a excelentíssima senhora sua esposa.

Quem acompanha os meus escritos e redes sociais sabe bem sobre a minha curta vida de cortesã afamada internacionalmente (2016-2022) e a profunda crise psíquica enfrentada por mim desde que estabeleci um relacionamento amoroso com um homem casado para o qual concedi homéricos privilégios. Desde que o conheci, portanto, eu passei a trair os meus conceitos, o meu amor-próprio, o meu brio. Ele não notou, hoje eu sei que esperar tal empatia de um homem branco, comprometido há quase quatro décadas e privilegiado é uma fantasia, um devaneio, um sonho de uma noite de verão, como diria o sucessor de José Sarney nas eleições de 1989.

Contardo Calligaris nunca errou, de fato, a gente não se perdoa pela culpa de ter nos traído. Ela é um sentimento que corrói nossa saúde mental. No meu caso, com análise, descobri que a minha traição autoimposta foi dupla: aos meus princípios morais e, concomitantemente, a minha personalidade, minha forma de ser e de estar no mundo sendo uma mulher exclusivista e individualista que nunca gostou de dividir nem as suas belas bonecas. Defendo a reforma agrária e a socialização de terras improdutivas, não do homem com o qual faço sexo.

O começo da traição que cometi contra mim foi em agosto de 2022. Foi em setembro de 2022. Foi em outubro de 2022. Foi em novembro de 2022. Foi em dezembro de 2022. Entrou 2023 adentro e se fez presente, também, em 2024. Recentemente me recordei de um episódio ocorrido em 2022, quando vim para cá, voltei para Passo Fundo e de lá segui para minha penúltima viagem para Brasília como cortesã. Sem razão alguma a minha mãe me disse para eu ficar bem, pois eu não era corna, a esposa do amante era e ele também, mas eu não. Fui viajar com essa fala desnecessária na mente e, alguns meses após, quando eu já não era acompanhante de luxo, mas a tola que esperava um homem, notei que a afirmação descontextualizada dela talvez tenha sido um ato falho marcado na negação, ou seja, eu era a corna do triângulo que, se não fosse por mim, não teria fim, mas eu sentia angústia homérica após encontrá-lo e nos dias seguintes aos encontros. Ele não, provavelmente ficava regozijado e seguia a sua bela vida de marido amado, idolatrado, salve, salve, enquanto eu adoecia afogada em ansiedade e nojo de mim.

O asco que eu sentia de mim, a vergonha de me olhar no espelho e encarar os meus próprios olhos era terrível, grotesca, horripilante. Não havia orgasmos múltiplos ou “monumentos ao paganismo”, como ele definiu o nosso sexo em meados de 2024, que valessem tal angústia psicologicamente arrebatadora e massacrante. Era uma dor horrenda que terminava respingando no sujeito por eu ter crises absurdas. Eu mesma cansei do meu desequilíbrio e por isso me afastei dele: nenhum dos dois merecia conviver com a Cláudia que fui enquanto mantínhamos contato. Eu não aguentava mais a tortura da minha sanidade e, claro, dignidade. Do pouco que eu ainda tinha dela.

Entretanto, meses antes, sendo eu o meu próprio Lúcifer, no penúltimo dia de 2022, quando eu já estava com imóvel locado em Porto Alegre com apartamento e cama inaugurados com o amante, resolvi usar o meu sagrado tempo fazendo aquilo que eu não pude fazer durante a escrita da minha dissertação e do meu projeto de doutorado: stalkeei o Facebook do cidadão! Em tal rede social, ao menos, estava lá o status de casado com fulana desde quando eu estava aprendendo a falar. Evidenciada, na primeira olhada, estava a disparidade estética do casal, ela infinitamente mais desprovida de beleza do que ele. Em minha defesa: eu preferia ter uma antagonista linda e genial, não feia e limitada.

No entanto, pude depreender, das homenagens amorosíssimas, dos elogios acerca de uma beleza exótica e existente, unicamente, nos olhos do homem tremendamente apaixonado, um declínio instaurado de 2020 em diante. As marcações de estar com fulana em tal lugar foram, ao longo do tempo, escasseando, quando começou a nossa relação elas não existiam mais.

Quando amigos marcavam o casal ele não permitia que o post aparecesse em seu feed, ficava só no dela. Qualquer mulher minimamente atenta e inteligente perceberia isso e não gostaria. Aliás, por tais questões permaneci com ele por mais tempo do que minha saúde psíquica poderia acatar: nunca em minha vida eu transaria gratuitamente com um sujeito declaradamente apaixonado pela mulher como ele demonstrava ser, anos antes. Talvez ele soubesse disso e, nessa questão, moldou o seu proceder internético, afinal eu não fui a primeira, tampouco serei a última “outra” na vida daquele casal de amantes eternos.

Como quem procura acha, encontrei uma coisa tão ridiculamente romântica que me deu náusea. Salve, salve Plasil! Porém, printei para olhar sempre que eu quisesse ser mais facilitadora, indulgente e doce com o amante e amado da mulher deselegante e sem noção do ridículo. Tratava-se de uma homenagem da vivente, escrita em 2013, no dia do aniversário de 26 anos de casamento do casal. Quanto amor transbordante! Tal declaração foi deletada das minhas fotos em maio de 2023, quando briguei com ele pela segunda vez, a mais avassaladora de todas, e o fiz tendo em mente aquela escrita melosamente brega típica de quem quer provar ao mundo o quanto ama e é bem-amada pelo homem que está convencido de que vai morrer naquele lugar, ao lado da sua cara metade, ‘carne e unha, alma gêmea, as metades da laranja, dois amantes dois irmãos, duas forças que se atraem, sonho lindo de viver’, como cantou o pai da Cleo Pires.

Penso que ajudei a reforçar a união eterna do casal enquanto cedia o meu tempo para a metade masculina da laranja. Segundo minha amada mamãe, o homem que trai volta mais manso para casa, no caso, para os braços da mulher amada. Que fofura, que beleza, eu era uma noitada nos dias do macho da dona fulana! E, como disse Lupicínio Rodrigues, não há maior prova de amor do que voltar para casa no fim da noite, no melhor estilo de Odisseu.

Talvez aquele sujeito tenha me aviltado desde o princípio. E não falo das conversas desconexas, de 2020, nas quais ele me ensinou a falar “eu sou hedonista” em grego antes de eu o bloquear e sumir. Falo de 2022, quando nos encontramos para um café, terminamos num motel onde, pela adega escondida no interior de um Fusca azul bebê, ele me mostrou que sabia o que queria. E teve. Nunca consegui compreender o porquê tive que cobrar os R$ 1.250,00 da minha hora quando eu já estava chegando na capital do planalto médio. E cobrei pouco, pois ficamos juntos por muito mais tempo. Ele realmente achava que era especial, que merecia algo especial. O porquê me intrigou, pois sempre me relacionei com homens iguais ou melhores do que ele e nunca fiz “caridade”. Ora, se ele era conhecido no RS ou em Porto Alegre, por alguns segmentos da sociedade local, eu era conhecida no país e fora dele. Não pelo meu Lattes, mas isso ele próprio deixou de atualizar. Eu era uma mulher máxima em todos os aspectos, ele não.

 Talvez alguma magia muito forte tenha me incentivado a lhe dar benefícios dos quais me arrependo imensamente desde o momento no qual lhes concedi. Não por ele ser ele, isso não se trata de nada pessoal, mas de eu ser quem sou e ter beneficiado um sujeito que superestima sua existência com facilitações que nenhum homem casado terceirizando o sexo mereceria. Eu errei comigo mesma de formas que não sei explicar, tampouco desejo compreender. Erros são erros e devem ser evitados, eu reincidi nos meus de forma a aniquilar comigo, com meu autoconceito, com minha essência, com meu caráter, com meu senso de justiça feminista. Foi uma relação que começou, sem sombras de dúvidas, com desrespeito hediondo em virtude da falta de pagamento voluntário por parte dele, porém eu continuei, porque tinha um ex insistente com tendências a ser corno em Passo Fundo, passeios quinzenais para Porto Alegre e encontros magníficos com homens que me adoravam e pagavam por cada segundo para estarem comigo.

Enfim, foi uma relação que começou errada e não teria como terminar certa. Liquidou com minha saúde mental, com a admiração que eu tanto sentia por mim, levou embora minha doçura, minha ternura, minha graça. Não foi o melhor dos meus erros, nem a melhor história que alguém já escreveu, tampouco o amor mais amigo que alguém já viveu e não é ou será, uma saudade que gosto de ter, contrariando a música do compadre do Erasmo.

Pela culpa por ter me traído ainda sinto certo embaraço angustiante. Ah, a angústia, o afeto que nunca mente! Sentimento tenebroso que me tornou uma pessoa má e desumanizadora. Apesar de haver em mim alguma paixão ou bom apreço eu desejava me vingar do homem a todo custo. Eu projetava nele uma culpa que eu não tinha, tampouco ele, pois a gente não escolhe de forma calculada querer ou desejar alguém. Todavia, em virtude do estado civil dele, eu fui cruel, muito cruel, cruelíssima. Obliterei qualquer humanidade do homem como fizeram os maiores genocidas da humanidade com suas vítimas. Eu, uma mulher conhecida por ser generosa, doce e leal com quem amo, fiz de tudo para magoar o meu ex-amante como se ele não fosse um ser humano, mas algo abjeto, no caso, como se eu fosse o tenente Aldo Raine (Bastardos Inglórios) e ele um nazifascista.

Ser amante, tal como narra Annie Ernaux, em seu belíssimo livro Paixão Simples,

nos faz descobrir “do que podemos ser capazes, ou seja, de tudo: desejos sublimes ou mortais, falta de dignidade, crendices e condutas que eu julgava insensatas nos outros uma vez que eu própria não as havia experimentado”, o amante da autora estreitou sua conexão com o mundo (2023, p. 60), a minha paixão fez o mesmo comigo e revelou uma Cláudia desumana e mefistofélica que eu não conhecia e nem desejo mais encontrar em minha vida.

Tão logo cheguei em Porto Alegre, em janeiro de 2023, eu andei essa cidade inteira fugindo de mim, fugindo do asco que eu tinha quando tentava me olhar no espelho. Conheci cada rua dessa cidade pisando com ódio (de mim), não “flanando” como ele fazia, acompanhado de sua amada, numa propriedade da sua família. Eu andava, andava, andava até me exaurir e voltar para casa tão exausta a ponto de evitar me enxergar no espelho no qual eu não era mais a mulher forte, alegre, linda, feliz e autodeterminada que fui antes de me trair.

Gostar daquele homem acabou comigo, acabou com a minha dignidade, liquidou com o meu amor-próprio, com o que eu conhecia da Cláudia que sempre amei e admirei ferrenhamente, apesar de todo pesar, apesar de cada dor. Ao me defrontar comigo eu focava em partes sem me ver inteira: passava batom olhando só para a minha boca, passava rímel olhando unicamente para os meus longos e curvilíneos cílios, sem mirar em meus próprios olhos de uma distância na qual eu me veria de verdade.

Caótica, o livro de crônicas que lançarei em março, pela editora Bestiário, é permeado pela dor causada por tal traição, pois certamente existem muitas mulheres e homens padecendo das dores por terem se traído, como eu. Entretanto, já estou mais recuperada e forte. Há cerca de um mês eu venho me contemplando olhando para mim inteira e nos meus olhos sem demasiado pesar, o que não ocorria desde agosto de 2022. Me pego, várias vezes, dizendo para a minha mãe: “Nossa, eu sou tão linda, né?! Como pude me colocar naquela situação!”. Ela afirma que belíssima eu sempre fui, o que eu sei, mas ela nunca passou pelo que passei, logo preciso lhe contar como é começar a renascer, como é estar perto de quem já fui estando próxima de ser quem desejo me tornar. Eu estou me vendo sem a vergonha que eu sentia de mim por colocar-me na subserviente posição de “a outra” sendo eu uma maravilhosa mulher que nasceu para ser a única!